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sábado, 3 de junho de 2017

Cerveja é filme!

Michael Jackson, o caçador de cerveja (não confundir com outro) [1]

Para quem tem alguma dúvida de que cervejas artesanais estão realizando uma verdadeira revolução, basta observar como esse tema tem sido cada vez mais retratado em filmes e documentários.


Provavelmente o marco nesse processo tenha sido o The Beer Hunter (O caçador de cerveja) que Michael Jackson fez em 1989 para o Discovery Channel. Obviamente não estamos falando aqui do rei do pop mundial, mas sim outro, inglês, ícone do mundo cervejeiro. Autor de diversos livros sobre cerveja, a começar com o best-seller (nunca traduzido em português) The World Guide to Beer, o primeiro guia que abordou o tema, publicado em 1977, Michael Jackson viajou o mundo atrás de segredos de cervejas e acabou desempenhando um papel fundamental para a valorização de diversos estilos e de cervejas locais.  

The Beer Hunter, disponível inclusive legendado no YouTube  (www.youtube.com/watch?v=IvAsgugPbCE&t=946s), possui seis episódios, cada um abordando as particularidades de cervejas de alguma região do mundo. No primeiro, em visita à Bélgica, apresenta o universo das Lambics, cervejas de fermentação espontânea. No segundo, ele explora a tradição cervejeira da Baviera, na Alemanha. No terceiro, ele explora o país com maior consumo per capita de cerveja do mundo: a República Tcheca (na época ainda como Tchecoslováquia), onde desvenda, entre outros segredos, a tradicional fábrica da Pilsner Urquell. No quarto visita o Monastério de Koningshoeven, único produtor de cervejas Trapistas situada na Holanda. No quinto episódio, Michael Jackson cruza o Atlántico e vai para a Califórnia, investigar a Anchoer Steam, verdadeira jóia rara das cervejarias artesanais. E no último episódio, ele retorna à Inglaterra para o evento anual que serviu de inspiração para o renascimento das tradicionais real ales ingleses. 

Embora seja um documentário com quase 30 anos, acabou desempenhando um papel fundamental para a valorização da cultura cervejeira. Falecido em 2007, dois anos antes do ídolo da música pop, Michael Jackson (o cervejeiro) foi certamente umas das figuras mais marcantes da história do mundo das cervejas.

Para não ficar atrás, a National Geographic também resolveu investir em documentários sobre cerveja, mas optou pelo caminho oposto: optou por documentar duas gigantes do mundo em uma série chamada “Megafactories”: a irlandesa Guinness e a holandesa Heineken. Sem ser tão interessante como a série com Michael Jackson, o documentário da National Geographic acaba apelando para cervejas mais comerciais (www.dailymotion.com/video/xs8bod_national-geographic-megafactories-heineken_tech).

Cartaz de "Como a Cerveja Salvou o Mundo" [2]
Outro documentário interessante e bem-humorado é “Como a Cerveja Salvou o Mundo” (www.youtube.com/watch?v=xO53rQ9nqQs), produzido pela Discovery Channel também. O filme faz uma viagem pela história da humanidade para demonstrar que, em vários momentos, a cerveja desempenhou um papel fundamental. O primeiro feito da cerveja foi dar condições para que os humanos se fixassem em algum local, já que o objetivo da revolução agrícola que permitiu que se cultivasse grãos como a cevada seria a produção da cerveja e não o pão. O pão que seria uma cerveja sólida (e não o contrário como dizem por aí). Em seguida, são relatadas a influência direta da cerveja em outros momentos cruciais, como a escrita (uma forma para perpetuar receitas de cervejas), a substituição da água infectada durante a idade média, o processo de pasteurização, a refrigeração e até mesmo a indústria moderna, entre outros. Exagero ou não, o fato é que o documentário, além de entreter, serve como ótima justificativa para que a gente continue a louvar a cerveja nossa de cada dia.

Recentemente, a Netflix disponibilizou em seu cardápio, no meio de séries e filmes que chamam atenção do grande público, “Novos Mestres Cervejeiros” (do original em inglês “Crafting a Nation”), que aborda o universo e os bastidores de cervejeiros artesanais em diferentes cidades dos EUA, documentário esse que já foi abordado no Revolução Artesanal.

Um dos muitos casos relatados nesse documentário refere-se à cervejaria Schlafly, que em 1991 teve a audácia (digamos assim) de se estabelecer em Saint Louis (Missouri), cidade que serviu de porta de entrada do meio-oeste americano, onde funciona a sede mundial da Budweiser (hoje Anheuser-Busch InBev – AB InBev, a gigante do setor de dispensa apresentações).

Por trás desse confronto Schlafly x Anheuser-Busch InBev, podemos identificar uma verdadeira guerra em curso entre as microcervejarias e a grande indústria cervejeira. Esse cenário é bem retratado também no documentário “Beer Wars”, dirigido por Anat Baron, que apresenta provas de ação de lobistas para prejudicar as cervejarias artesanais. Embora se passe nos EUA, certamente retrata questões muito familiares ao universo cervejeiro local.

No Brasil, particularmente, o caso da histórica cerveja Canoinhense, talvez uma das artesanais há mais tempo no mercado foi objeto do curta “Cerveja Falada” (www.youtube.com/watch?v=YaNWFGVns60), que relata a história de Rupprecht Loeffler (conhecido como "Seu" Lefla), mestre cervejeiro com 93 anos de idade na época do documentário. Uma verdadeira viagem no tempo que merece uma postagem especial assim que eu experimentar suas cervejas como “Nó de Pinho” ou “Jahu”.
Cartaz do Curta "Cerveja Falada" [3]

Por fim, esses documentários trazem histórias de vida que podem servir de inspiração para cervejeiros caseiros seguirem em frente. Parafraseando a canção do Cordel do Fogo Encantado que serviu de tema para o filme “Lisbela e o Prisioneiro”, cerveja é filme (....eu sei pelo cheiro de malte e lúpulo que dá quando a gente toma).

Notas:
[1] Imagem acessada em http://philly.thedrinknation.com/articles/read/6614-Kick-in-a-Few-Bucks-for-the-Michael-Jackson-Beer-Hunter-Movie
[2] Imagem acessada em http://www.imdb.com/title/tt1832368/
[3] Imagem acessada em https://www.youtube.com/watch?v=65VfM6X43Aw 

domingo, 29 de janeiro de 2017

A revolução da cerveja artesanal em Saint Louis, EUA


Cartaz do filme "Os Novos Mestres Cervejeiros" (Netflix)

Hoje gostaria de indicar o filme “Os Novos Mestres Cervejeiros” (1), disponível no Netflix,  para todos aqueles interessados na revolução em curso da cerveja artesanal (trailer: https://www.youtube.com/watch?v=mJjTyz9aEsI).

Trata-se de um documentário que aborda o universo e os bastidores de cervejeiros artesanais em diferentes cidades dos EUA  (nós não estamos sós!). Tendo como fio condutor a luta e empenho pessoal para a construção da Black Shirt em Denver (Colorado), o filme discorre sobre a emergência e o fortalecimento de cervejarias artesanais naquele país, transcendendo o aspecto da cerveja em si e de suas qualidades, para identificar a filosofia por trás desse movimento. Os casos relatados abordam diferentes áreas dos EUA, passando desde Chico (Califórnia), na costa oeste, até Boston (Massachusetts), no extremo oposto da costa leste. Um dos casos abordados é da cervejaria Schlafly, que em 1991 teve a audácia, digamos assim, de se estabelecer em Saint Louis (Missouri), justamente a cidade onde funcionava a sede mundial da Budweiser (hoje Anheuser-Busch InBev - AB Inbev, a gigante do setor que dispensa apresentação).


Na frente da Schlafly, em Saint Louis, com meu cunhado.

A partir de um velho e abandonado barracão de Saint Louis, a Schlafly se instalou mesmo diante de perspectivas nada favoráveis (como é que enfrentariam a fortíssima Budweiser no seu próprio quintal?). Entretanto, conseguiram se estabelecer e hoje suas cervejas como a Pale Ale e a Dry Hopped Apa (entre outras tantas) tem fãs não só locais como no mundo inteiro, como eu aqui. 

Em 2013 tive a oportunidade de conhecer pessoalmente essa cervejaria quando fui visitar minha irmã que reside em Saint Louis. Depois de devidamente apresentados a suas maravilhosas cervejas por meu cunhado, eu e minha esposa tivemos o privilégio de conhecermos a fábrica da Schlafly.

Schlafly degustada em seu copo adquirido na fábrica 
No local, hoje já bem estruturado, funciona um restaurante com uma vasta carta de cervejas da Schlafly no barril, ou, como se diz em muitos lugares, on tap (2). Depois de almoçarmos no local, fizemos um tour, fomos apresentados à sua história e pudemos degustar diversos tipos de cervejas fabricadas no local. Confesso que fiquei encantado na época pela Dry Hopped Apa. Uma explosão de lúpulos, que concilia alto amargor com um final muito agradável. Como bons turistas cervejeiros, ainda saímos do local com alguns souvenires, tais como copo tulip, camiseta e bolachas para copos (além, é claro, de algumas garrafas).

Esse turismo cervejeiro é algo que, definitivamente, merece atenção especial. Aqui no Brasil, pouco a pouco, as cervejarias artesanais têm percebido a importância desse aspecto. Em Curitiba, cervejarias como a Bodebrown, Way e Klein, entre outras, desenvolvem atividades turísticas, aspecto que merecerá postagens específicas mais adiante. Mas ainda assim há muito a ser feito nesse sentido. Com um número de adeptos cada vez maior, a cultura cervejeira artesanal tem sim um imenso potencial turístico a ser explorado. A revolução artesanal também é turistica.

Exposição de itens que fazem parte da história da Schlafly

Por fim, outro aspecto que chama atenção no documentário “Os Novos Mestres Cervejeiros”, é que a região onde a Schlafly se estabeleceu era até então uma das mais desvalorizadas de Saint Louis. Com o sucesso dessa cervejaria (contrariando as expectativas negativas), ocorreu um processo de transformação urbana nas redondezas que teve como vetor principal justamente a instalação da cervejaria. Ou seja, a audaciosa atitude de ser criadores resultou não apenas em novas opções de boas cervejas, mas também na valorização urbana daquela parte da cidade. Ainda bem que seus criadores não se intimidaram diante dos obstáculos e insistiram no sonho. Os consumidores como eu agradecem.

(1) Original em inglês: "Crafting a Nation"

(2)    Para quem não é habituado com o universo cervejeiro artesanal, vale a pena conhecer essa explicação sobre o que diferencia cerveja engarrafada daquela que está no barril. Nem sempre a que está na garrafa é pasteurizada (que poderia fazer com que ela perdesse um pouco do seu frescor) assim como nem sempre a que é servida diretamente do barril não é pasteurizada. Para entender um pouco mais:  http://www.felicidadeliquida.com.br/2015/03/o-mito-da-cerveja-on-tap.html